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Yama – Yoga e a nossa forma de se relacionar com o mundo

No ocidente, na maioria das vezes que ouvimos a palavra Yoga, ela está relacionada às práticas físicas, os asanaspranayamasmudrasbandhaskriyas e meditação. Considero importante respeitarmos esse movimento, pois a maioria das pessoas chega ao Yoga através da prática de asana, porém, é importante deixar claro que o Yoga é uma prática e uma filosofia milenar, uma preciosidade para quem quer se conhecer, se transformar e se desenvolver.

E para mim, a melhor forma de zelar e transmitir a preciosidade do Yoga é através da nossa conduta. Com a intenção de que a força da transformação, do conhecimento e da purificação se expanda, compartilho aqui os dois primeiros componentes de uma jornada de encontro ao Yoga, à plenitude. Namastê. Om. Yoga.

Yama e niyama são citados em alguns textos importantes da tradição do Yoga, como por exemplo, nos Yoga Sutras de Patanjali, o primeiro e mais antigo tratado de Yoga que se tem registro, e no Hatha Yoga Pradipika, dentre outros. Assim, é com grande reverência e respeito à Patanjali e aos seu Yoga Sutras, que o utilizarei para nos aprofundarmos nesse estudo de Yama e Niyama.

Vale ressaltar que o Yoga Sutras de Patanjali, originalmente está escrito em sânscrito, possui algumas traduções que na maioria das vezes baseadas nas compreensões do tradutor. A tradução que utilizarei como referência é de T. K. V. Desikachar.

A palavra Yama, vem do verbo yam, que significa “refrear”, “restringir” e pode ser traduzida por refreamento, controle, domínio de uma tendência, de uma ação adharmica, sendo assim, Yama podem ser considerados orientações de como conduzir auspiciosamente as nossas relações com o mundo externo. A palavra Niyama pode ser traduzida como abster-se, deixar de fazer algo por um bem maior, são orientações de conduta para harmonização do nosso mundo interno.

Seguindo a ordem do Yoga Sutras, primeiro abordarei os Yama, composto pelos cinco conceitos: Ahimsa, Satya, Asteya, Bramacharya e Aparigraha.

Ahimsa

“Consideração para com todos os seres vivos, especialmente os que são inocentes, os que estão em dificuldade ou situação pior do que a nossa.”

Este primeiro Yama é conhecido como Ahimsa. Para se entender Ahimsa, precisamos compreender himsa. Segundo TKV Desikachar, himsa significa “injustiça” ou “crueldade”. Com o prefixo “a”, a palavra se torna Ahimsa, o que então a transforma em ausência de himsaAhimsa pode ser interpretada como não violência, não causar dano. Quando ampliamos a nossa capacidade de considerarmos primeiramente a nós mesmos de forma amorosa, estendemos essa capacidade de consideração também aos outros, pois o que faço ao outro, faço também a mim, uma vez que a lei do karma é infalível. Considerar a todos os seres vivos, é incluir-se nesta consideração. Alguns relacionam este Yama com uma atitude de adotar uma dieta vegetariana ou vegana.

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Respeito e considero esse ponto de vista, até mesmo, porque sou vegetariana, mas como digo, a consideração deve acontecer primeiro para comigo mesmo. De nada vale, não comer carne ou ovos, mas usar substâncias que causam mal à saúde, como cigarro ou outras drogas, ou até mesmo sustentar e permitir relacionamentos abusivos. Muitas vezes estamos carentes de amor próprio. Olhar para si com consideração, em busca de se tornar uma pessoa melhor, com certeza, contribui para que eu possa oferecer isso também ao mundo.

Satya

“Comunicação correta por meio da fala, da escrita, dos gestos e ações.”

Este Yama é conhecido como SatyaSatya significa dizer a verdade, satya é veracidade, honestidade. Tem uma frase de um texto chamado desiderata que diz: “Fale sua verdade, mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, eles também têm a sua própria história.”

Já ouvi a professora Glória Arieira falar da verdade classificando-a em 3: subjetiva, relativa e absoluta. Podemos então perceber, que a verdade está muito relacionada com a forma de ver de cada um, sendo esta, a verdade subjetiva. Já, quando algo se apresenta de uma forma em que um grupo de pessoas tem a mesma percepção de algo, aquilo pode ser considerado uma verdade relativa. Porém, a verdade absoluta, está além de qualquer relatividade e subjetividade, é atemporal, é Brahma. Mas, como então, podemos ser verdadeiros com nós mesmos, para que possamos atingir a “comunicação correta por meio da fala, da escrita, dos gestos e ações?” E se eu agir de uma forma que não seja coerente com a minha verdade, com aquilo que vejo e acredito, estarei sendo verdadeiro?

Penso, que se uma verdade subjetiva, é algo que não está de acordo com o yama
anterior, Ahimsa, podendo causar uma agressão ou um dano, devemos esperar, examinar, para ver se é realmente uma verdade. Devemos sempre lembrar das cinco atividades da mente, que Patañjali menciona no primeiro capitulo dos Yoga Sutras – Samadhi Pada, nos sutras 1.5 e 1.6: “Há cinco atividades da mente. Cada uma delas pode ser benéfica e cada uma pode causar problemas. As cinco atividades são: compreensão correta, compreensão errônea, imaginação, sono profundo e memória”.

Com o aprimoramento do autoconhecimento, podemos nos conduzir de uma forma
mais auspiciosa na vida, se uma compreensão é correta, mas pode causar um tipo de problema, podemos escolher, se vale desprender energia para causar um problema de forma a chegar a uma resolução, o importante é que seja coerente com que estamos buscando como yogis, que contribua para o alcance de moksha.

Asteya

“Ausência de cobiça ou a capacidade de resistir a um desejo por algo que não nos
pertence.”

Asteya significa não roubar, não tomar nada que não nos pertença. Penso que este yama, esteja relacionado com duas atitudes, atitude de viveka (discernimento) e vairagya (desapego). Quando tenho clareza e reconhecimento de minhas funções, do lugar que ocupo, fica mais fácil perceber o que é concedido a mim naquele momento, e também o que não é. Asteya, é muito profundo… Temos que nos empenhar para ter cada vez mais discernimento, porque se não estamos atentos, muitas vezes sem perceber e em conexão com o estado de contemplação, fica fácil colocar um pouco de apego e querer transformar admiração, contemplação em posse.

Se amadurecermos em nós a ideia de que estamos aqui experienciando, vivenciando, aprendendo, e que o principal objetivo é sermos livres, começamos a perceber com gratidão e honra o que realmente nos pertence nesse momento, e assim fica mais fácil alcançar o contentamento e direcionar nossas ações para que possamos viver em harmonia e livres, sendo possível vivenciar o estado de Yoga.

Brahmacharya

“Moderação em todas as nossas ações.”

Esse Yama é conhecido como brahmacharya e pode ser interpretado como um bom
direcionamento de nossa energia para aquilo que é essencial. Geralmente, vejo esse
yama ser mencionado como uma atitude de abstinência sexual. Mas o que percebo em relação a esse assunto dentro da tradição do Yoga, é que esse yamabrahmacharya, representa uma responsabilidade que devemos ter com os nossos relacionamentos para que eles sejam fundamentados em propósitos elevados, que estejam além de desejos, vaidades, atração física e sexual. Manter relacionamentos superficiais, que servem para satisfazer somente as necessidades sexuais, desejos e paixões temporárias, não nos conduz ao caminho da liberdade, pelo contrário, gera ainda mais dependência, pois fortalecemos, aquilo que alimentamos com nossas atitudes e o objetivo do yogi é fortalecer em si, princípios que o conduza a uma vida responsável e consciente, com objetivos claros que contribuam para a evolução.

Aparigraha

“Ausência de ganancia ou a habilidade de aceitar apenas o que é apropriado.”

Esse yama é conhecido como aparigraha, sua tradução significa não apegar. Já vi algumas interpretações para ele, como por exemplo: não possessividade, não
acumular e desapego. Pessoalmente eu vejo este yama, como uma indicação de não
egoísmo. Muitas vezes, se não prestarmos a atenção, quanto mais temos, mais
queremos. Por isso é muito importante sempre auto se observar, para evitar se
apossar de coisas que não nos pertença e sempre examinarmos se o que queremos,
realmente se faz necessário, evitando assim, acúmulos, desperdícios e nos libertando também do egoísmo.

Patanjali disse que: “Quando a adoção dessas atitudes em nosso ambiente já não é uma mera obrigação, independentemente da nossa situação social, cultural, intelectual ou individual, ela se aproxima da irreversibilidade.”

E a melhor forma que temos de nos manter firmes no propósito de prática dos yama é através do amadurecimento, das experiências, da compreensão correta, da atenção na escolha da ação, das intenções e do autoconhecimento. Infelizmente, por falta de atenção, até mesmo inocentemente, uma pessoa pode cometer falhas. Por isso que o amadurecimento, que muitas vezes vem de experiências vividas, que são digeridas e aproveitadas como forma de auto aperfeiçoamento através de uma compreensão correta, nos torna mais conscientes no momento de direcionarmos as nossas ações.

Mas o importante, é que isso seja vivido de uma forma natural, pois cada indivíduo tem a sua própria capacidade de assimilação, entendimento da vida e de si mesmo e através deste processo gradual é que nos tornamos mais fortalecidos, conscientes e confortáveis com os propósitos da prática de yama e sendo assim, essas atitudes, são muito naturais na nossa vida, tornando a irreversibilidade dessas ações algo intrínseco da pratica no dia-a-dia.

 

Por Aline Lago (Nowmastê)

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