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AHAṄKĀRA, O EGO

Por Patrícia de Abreu (publicado no Nowmastê)

Você já deve ter ouvido alguém dizer ou escrever sobre o quanto o Ego é ruim, e o quanto ele nos impede no processo do despertar; até mesmo já deve ter ouvido que deveríamos matá-lo ou extermina-lo para se ter a iluminação. Vejamos, se você nunca ouviu isso você é um sortudo, pois a maioria de nós praticantes de longa data já ouviu isso alguma vez…. Essa visão equivocada de que o ego é algo ruim surgiu a um tempo atrás quando alguns mestres e professores, sem entender direito o que era o Ego e mantendo uma visão equivocada sobre o conhecimento, começaram a difundir esse pensamento, mas, hoje, com a clareza de mestres e de professores competentes essa visão vem se desfazendo, e minha ideia com esse artigo é abrir os olhos daqueles que ainda mantêm esse pensamento equivocado sobre o coitado no do nosso ego.

Bom, vamos lá. O que é o ego? O ego é auto referência em gostos e aversões. Ele faz parte de um complexo chamado antaḥkāraṇa ou instrumento interno. Antaḥkāraṇa é o que conhecemos no ocidente apenas como mente, mas na verdade é que a mente é dividida em diferentes partes; sendo: a mente (manas), o intelecto (buddhi), o ego (ahaṅkāra) e a memória (citta). O ego então é apenas uma parte da nossa mente.

“A natureza da mente é a dúvida. A natureza do intelecto é a decisão. A natureza do ego é esta noção de que eu faço. A natureza da memória é guardar aquilo que já foi vivido.” Tattvabodhaḥ

Ahaṅkāra é, então, aquela voz que diz: “Eu gosto ou eu não gosto”, “eu quero, eu não quero.” O ego é aquele que julga o que é bom e o que é ruim e te auxilia no processo de escolhas. Se você está, por exemplo, lendo esse artigo nesse momento foi por causa do seu ego, que julgou que ler seria algo bom e importante e o conduziu até a leitura. Se você não tem ego, por exemplo, não poderia fazer esse tipo de escolha.

“Descartar o ego não é uma opção, já que ele faz parte da ordem psíquica que somos.” Julia Rebuzzi.

Outro exemplo: que tipo de alimentação você faz? Que tipos de alimentos você escolhe colocar no prato? Esse tipo de escolha também vem do ego. Sem o ego você simplesmente não poderia escolher o que comer, sejam escolhas boas ou ruins, você simplesmente não teria mais capacidade de dizer “eu como banana, pois é saudável” e “eu não como frituras por que faz mal.” Entende? Seria como ficar sem reação, sem vontades, você sequer poderia cozinhar, uma vez que sem saber o que escolher você não poderia colocar nada no prato! Ficou claro?

“É necessário entendermos que o ego não é bom, nem ruim em si mesmo. Ele apenas cumpre uma função em nossas vidas: nos ajudar a fazer escolhas.”
Bruno Jones

Olha só como dependemos diariamente do nosso ego, desde o momento em que você acorda e escova os dentes até a roupa que você escolhe vestir, diariamente, tudo isso são escolhas do ego. Matar o ego, exterminá-lo ou tentar lutar contra ele te colocaria em uma situação de vegetal, seria como se você estivesse vegetando em uma cama sem poder movimentar-se. Sim, é também seu ego que te leva para as práticas de Yoga, climbing e também para outros tipos de treinamento que você faz, pois julga fazer bem pra sua saúde.

“Por causa do ego, podemos ter profissões diferentes, idéias diferentes, podemos cumprir diferentes papéis, e desta forma, construirmos uma sociedade onde cada um contribui de uma forma diferente.” Bruno Jones.

Ficando claro qual o papel do ego em nossa vida nós precisamos agora aprender a nos relacionar com ele. Como assim? Nós dependemos do ego para viver, mas não podemos associar a nossa felicidade a realização dos desejos do nosso ego.

Exemplo. Um belo dia você acorda e decide que precisa de um carro novo. Você passa dias pensando no carro e começa a associar a sua felicidade com a compra do carro novo. Enquanto você não compra o carro você não consegue ser feliz. Esse tipo de sofrimento é decorrente da ilusão de que você só pode ser feliz quando suprir essa necessidade do seu ego. O que muitas vezes acontece é que nos auto sabotamos criando razões para a compra até realmente comprar o carro e, na maioria dos casos, ficamos felizes pelos primeiros meses com o carro novo, algumas pessoas apenas alguns dias e logo a infelicidade retorna fazendo o nosso ego buscar novos desejos para que possamos experimentar aquela felicidade que é momentânea. Isso é ser escravo do ego, é identificar-se com essas experiências de felicidade que o ego produz. Resumindo, não dá pra matar o ego porque precisamos dele para julgar e fazer escolhas, mas dá pra aprender que a felicidade não depende do ego e que podemos viver sem sermos escravos dele.

O que devo fazer, então? Entender a função do ego na sua vida e não associar a sua felicidade a ele é um grande começo. Pense que o ego trás apenas experiências de felicidade e experiência é algo que tem começo, meio e fim. Você não quer uma felicidade que vem e vai não é mesmo? Então comece a entender que você pode ser feliz independentemente de realizar ou não desejos, de se relacionar ou não com pessoas. Você pode satisfazer seu ego, não há nada de errado com isso, você pode comprar carros, viajar, ter as roupas que quiser, mas não associe a sua felicidade com isso e então será livre.

“O ego bebe as águas doces e amargas, desfrutando das doces, rejeitando as amargas. O Ser bebe as águas doces e amargas, sem desfrutá-las nem rejeitá-las. O ego afunda nas trevas, enquanto que o Ser mergulha na luz.” Kaṭha Upaniṣad: (I:3.1)

Quando não for possível comprar algo, quando não conseguir satisfazer seus desejos, até mesmo quando não conseguir se relacionar com pessoas que você gostaria, ou quando a sua vontade não coincidir com a realidade lembre-se que a felicidade não depende disso pois a felicidade já é inerente ao Ser.

Como seres humanos temos o livre arbítrio para tomar decisões, para fazer o que queremos, mas os resultados das nossas ações não podem ser controlados, não nos pertence, então, por mais difícil que seja obter um resultado que o ego não aprecie não podemos nos depreciar ou nos tornar pessoas infelizes, temos que entender que o resultado das nossas ações pertence a Īśvara, é de Īśvara, então mais uma vez Īśvara praṇidhānā, eu me entrego, eu aceito a ordem do universo, eu sou feliz e me lembro que está tudo perfeitamente bem.

Eu aceito quando tenho, como também quando não tenho. Pratico Santoṣa, o contentamento, que me permite estar bem e satisfeito mesmo quando a realidade não condiz com os desejos do meu ego. “Contentamento é desafogo, pois liberta-nos da ansiedade por obter ou triunfar.” Professor Hermógenes.

“Não há riqueza maior do que o sentimento de ter bastante, de contentar-se com o que se é, bem como com o que ainda não se é, ou ainda não se conseguiu ser.” Professor Hermógenes.

Professor Hermógenes ainda nos ensina o valor de Sama Bhava:

“Quando possui ou desfruta as coisas que adora, está feliz. Quando lhe faltam, fica triste e ansioso. Uma pessoa assim, só conquistará sua mente e se sentirá realizado quando desenvolver “sama bhava” (sama = igual e bhava = atitude psíquica), ou seja, equanimidade psíquica. Só assim conhecerá satisfação, contentamento, equilíbrio e equidistância dos opostos da existência.” Professor Hermógenes

“O eu é sempre livre, imutável e nada faz. Portanto também não se relaciona com o resultado das ações. O ego é quem faz. Por isso em sânscrito é chamado de ahaṅkāra, ou, o Eu que faz. Este sim, por agir, lida com os resultados de suas próprias ações.” complementa Bruno Jones

Mas eu não consigo sentir essa felicidade inerente do Ser, o que eu faço? Só o conhecimento liberta, Brahmavidyā, é o autoconhecimento, Yoga para que possamos discernir quem somos e quem pensamos Ser. Como dizia Patañjali, “prática constante e desapego, não há outro caminho.” Estudar, meditar, questionar e contemplar. Entender também que esse entendimento de que eu já sou feliz não vai acontecer da noite pro dia, você provavelmente vai passar uma vida jogando com o ego, brincando, tentando não identificar-se com esses gostos e aversões, respire, essa é a vida.

“Com o esforço na prática, aprimoramos nosso discernimento e desenvolvemos disciplina e clareza de percepção. E um ego disciplinado e lúcido é capaz de discernir não só a melhor atitude com que agir no mundo, mas também a meta – mokṣa – que nos liberta do sofrimento pelos desejos e aversões.” Julia Rebuzzi.

Boas praticas, bons estudos, e bons diálogos internos com o Ego. Lembre-se que você já é o que está buscando, a felicidade já está ai e nada o que fizer ou realizar vai poder lhe trazer aquilo que você já tem. Oṁ

PS. As citações de Bruno Jones e Julia Rebuzzi foram coletadas de artigos publicados no site http://www.yoga.pro.br e as citações do professor Hermógenes são do livro Yoga para Nervosos.

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